A menina de branco

          Deitado neste leito de hospital, sei que me resta pouco tempo de vida. Cheio de medo, espero apenas o momento de exalar meu suspiro derradeiro. Os médicos dizem que meu estado de saúde é irreversível, porque a doença já se espalhou por todo meu corpo. Estou morrendo e ninguém pode fazer mais nada por mim.

     Antes de morrer, porém, quero contar a minha história.  Sei que alguns, ao tomarem conhecimento dela, dirão que não passo de um grande mentiroso. Já outros, vão dizer que perdi completamente o juízo, ao relatar coisas tão absurdas e fantasiosas. Que se danem todos. Agora que estou prestes a deixar este mundo, pouco me importa o que falem ou pensem de mim. 

     Tinha dezoito anos quando tudo aconteceu. Já naquela época, comecei a frequentar bares e casas noturnas. Metido naquela vida de boêmio, atravessei noites e madrugadas, sempre à procura de aventuras e prazeres fáceis. Foi quando, para meu completo espanto, conheci uma garota de quem nunca vou esquecer.      

    Havia na minha cidade três boates, mas apenas numa delas, eu gostava de tomar minhas cervejas e dançar com as garotas. Aquela era, por assim dizer, a minha casa de diversão predileta. Por fora a boate era toda moldada no gesso, tomando o aspecto de uma caverna. Por dentro, era rústica e aconchegante, com muitas cavidades nas paredes.  

    Naquela noite, quando entrei naquela boate, já não havia tanta gente dentro dela. a boatequando entrei na boate, não havia muita gente lá dentro. Entrei, sentei-me numa das mesas e pedi uma cerveja ao garçom. Meio cansado, eu queria apenas beber e dançar um pouco. Não demorou muito e percebi que, do outro lado, quase junto à porta lateral de saída, uma menina de vestido branco olhava insistentemente pra mim. Quando um feixe de luz iluminou melhor a mesa dela, percebi que se tratava de uma garota muito bonita. Por isso, sem perda de tempo, fui até onde ela estava e convidei-a pra dançar. Ela aceitou.

     Enquanto dançávamos, reparei melhor no jeito dela. Eu não tinha me enganado, a menina era realmente linda, lindíssima até. Tão encantadora que mais parecia uma princesa. Tinha cabelos loiros e dois lindos olhos verdes, que me olhavam com certa ternura e curiosidade. Seu rosto era meigo e delicado, quase angelical. Do seu corpo desprendia-se uma fragrância inebriante, que mais parecia o suave eflúvio do jasmim.

     Ao som de músicas românticas dancei com Mariana - eis o nome dela - durante um bom tempo. Mas, quando o ritmo da música mudou, tornando-se mais rápido e barulhento, ela soltou-se de mim e começou a girar pela pista de dança. Meio sem graça, voltei para minha mesa.

   Então, como forma de pedir desculpas, Mariana veio de lá rodopiando, até que ficou a dois passos de mim. E começou a  dançar, sacudindo o corpo inteiro - e que corpo! Depois, começou a rebolar os quadris, de um jeito tão sensual e gracioso que me deixou completamente deslumbrado.

   Eis que aquela menina, além de ser completamente maluquinha, de muito graciosa, era completamente maluquinha. Quando finalmente parou de dançar, veio sentar-se junto de mim. No momento seguinte já estávamos abraçados, qual dois namorados. A certa altura, completamente enfeitiçado por aquela doce menina, não pude mais controlar meus anseios. Por isso, depois de abraçá-la, dei-lhe um beijo ardente e demorado. Não satisfeito, durante o resto da noite provei mais e mais dos beijos dela, que eram doces como mel de araçá.

  Já era de madrugada quando saímos da boate. Sem muita pressa fui deixar Mariana em casa. E ela, ao despedir-se de mim, abraçou-me demoradamente, prometendo que nos encontraríamos no dia seguinte. Mas, muitos dias se passaram e não tive mais notícias de Mariana. Meio decepcionado fui até a casa dela. Ao chegar no portão, bati palmas. Quem me atendeu foi um velho corcunda, de aparência meio desleixada.

          - Pois não.

          - Boa noite,  Mariana está?

      O velho deu mais alguns passos, chegando mais perto de mim. E muito desconfiado perguntou:

          - Quem é você, moço?

          - Meu nome é Marcelo, sou amigo de Mariana. 

          - Sei - resmungou ele.

         - O senhor pode dizer a ela que estou aqui?             Dessa vez o homenzinho balançou a cabeça, num gesto de desagrado e impaciência. Parecia estar meio zangado.

       - Olhe, moço, eu não conheço você. Mas se não sabe, minha filha morreu faz quase dois anos.    

       Agora quem estava zangado era eu. Aquele sujeito, se não era maluco, só podia estar brincando comigo:

      - Veja bem, meu senhor, isso de dizer que Mariana morreu... não tem a menor graça.

      - Não tem graça mesmo não, meu rapaz. Se estou dizendo quem minha filha morreu, é porque ela realmente morreu. Não ia brincar com essas coisas.

      Meio confuso, eu já não sabia o que dizer.  Se o velho não estava brincando, com toda certeza estava mentindo. Mas, se não queria que eu falasse com Mariana, era só  dizer. Podia até me mandar embora. Para que mentir, inventar que a menina tinha morrido?!

     Difícil ganhar a simpatia daquele velho maluco. Dava pra notar que ele não gostou de mim. Apesar de tudo, tentei conversar um pouco com ele. Não houve jeito. A criatura permaneceu o tempo inteiro em silêncio, olhando pra mim de cara fechada. Fechei a cara também e não quis mais conversa com ele. Decidi então que o melhor a fazer era ir embora dali. Antes de ir embora, porém, ainda perguntei o nome dele.

      - Meu nome é Herculano Ramos, respondeu o homenzinho, cheio de azedume.

     Despedindo-me do corcunda, tomei o caminho de volta para casa. Era só o que faltava, um velho idiota escondendo a filha de mim, como se eu fosse algum monstro. Era difícil entender, como uma garota, tão educada e gentil, podia ter um pai tão rabugento e mal humorado. Pobre Mariana. Mais tarde descobri que a vida dela era extremamente complicada.

 

   Quando cheguei a casa, já era tarde da noite. Antes de deitar, ainda tentei ler um pouco. Mas não houve como. Não consegui me concentrar na leitura. Eu estava triste e preocupado, sem esperanças de algum dia rever Mariana. Por isso, não consegui dormir naquela noite.

   À tardinha, muito depois do almoço, fui até a casa de Evandro. Encontrei-o no jardim, regando flores e samambaias. Tão logo me viu, veio ao meu encontro.

    - Quem é vivo sempre aparece!

    Cercados de plantas e jarros enormes, ficamos conversando por algum tempo. No meio da conversa, fiz-lhe a pergunta:

    - Você conhece um velho chamado Herculano Ramos?

    - Conhecia. O velho já morreu - disse-me Evandro. 

    - Que morreu que nada! Estou falando de um velho corcunda, meio amalucado.

    - Com esse nome, meu amigo, só existia um corcunda nessa cidade. - Mas, por que esse interesse pelo finado? 

    Ia responder com uma mentira qualquer, quando ele me fez uma segunda pergunta:

   - Espere um pouco. Você já passou, à noite, perto de uma casa verde, que fica do outro lado da ponte?

   - Eu não! Por quê?

   - Porque era lá que o velho morava antes de morrer.

   - E daí?

  - Daí que aquela casa é mal assombrada. Muita gente diz que, durante a noite, o fantasma do velho acende as luzes do jardim e depois aparece no portão da casa.

  -  em e o fantasma do velho aparece no portão da casa, gritando e assustando todo mundo.

  - Mas isso tudo é de assustar qualquer umque bobagem é essa? Você acredita em fantasmas, Evandro? - perguntei, já escondendo meu medo.

  - Acredito não, meu amigo. E se quer saber, também não acredito nessas histórias que as pessoas contam. Isso é tudo invenção dessa gente.

  Fiquei calado por um instante. Imaginando o que Evandro ia dizer se eu contasse pra ele  o povo conodas essas histórias que as pessoas contam me dão muito m.  não só acredito   o já tinha morrido, eu tinha conversado com um fantasma? Ao ouvir aquilo senti meu sangue gelar. Então eu tinha conversado com um morto de tão assustado perdi a vozalém de gelado, fiquei completamente mudo  

  - Mas que história é essa, Evandro? Primeiro me diga, esse velho, do qual você está falando... ouvi dizer que ele tem uma filha?

  - Tem. E o nome da menina é Mariana.

  - E a menina... ainda mora na casa? - perguntei, fingindo pouco interesse.

  - Não, a menina agora está morando com a tia. mora com o  4,enio ouvir tudo aquilo, fiquei a completamente mudo. Mudo e gelado. De tão assustado, perdi a voz. Quando finalmente me refiz do susto, perguntei, fingindo descrença:

  - Você acredita em fantasmas, Evandro?

  - Sei lá. Mas se não acredito em tudo que eles contam, de certas coisas eu não duvido. 

   - Está certo. E como foi que o velho morreu?

   - Se quer saber, vou lhe contar toda história.

   Evandro foi até o canto do jardim e desligou a mangueira de água. Depois, contou-me a seguinte história.

​     " O velho tinha um fusquinha vermelho. Então, numa manhã de domingo, ele botou a mulher dentro do carro e foi almoçar na chácara do sogro. Por lá, dizem que ele bebeu um pouco. Dizem até que ele bebeu além da conta. Não sei. Tudo que sei é que, no caminho de volta, ele perdeu o controle do volante e o fusquinha saiu da estrada, capotando várias vezes seguidas, antes de pegar fogo. Apesar de ferido, o velho ainda tentou salvar a esposa. Mas, ela ficou presa nas ferragens do veículo e morreu carbonizada".

   Evandro fez uma pequena pausa e depois continuou.
​ "Depois de enterrar a mulher, o velho contratou um reboque e deu um jeito de transportar o que sobrou do fusquinha. Dizem que, na época, ele sentou num banquinho e passou um dia inteiro no quintal da casa, olhando para aquele monte de ferro retorcido. Chorando e conversando sozinho. Dias mais tarde, o velho morreu de um infarto fulminante".
- Que história triste, meu amigo.
- Pois é. O pior é que agora, depois de perder a esposa e a filha, muita gente fala que ele ficou completamente maluco. Coitado do velho, tão sozinho no mundo e...

 Não deixei Evandro concluir a frase.

 - Espere aí, o corcunda não tem outra filha? 

Não. O velho só tinha aquela filha. Chamava-se Mariana, a menina. Uma linda loirinha de olhos verdes.

   Ao ouvir as palavras de Evandro, senti meu sangue gelar.
Já passava do meio-dia quando me despedi de Evandro. Voltei pra casa completamente atordoado e nervoso. apavorado, fiqeuapavorado com toda aquela história. Depois almoço ainda tentei ler livro, não consegui. Aquelas histórias todas não saíam de ​​minha cabeça çpor isso eu não conseguia me concentrar na leitura. Então resolvi ir até a casa de minha avó. Sempre ouvi as pessoas dizerem que ela conversava com os mortos, mas eu pouco acreditava naquelas histórias. Não dava a mínima pra elas.Achava até que minha avó era meio maluca. Mas eut tinha muito respeito por ela. 

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 Contei toda aquela estóra à minha vó. Foi então que ela me contou sobre meu avô. Disse que ele tinha aquele dom , de se comunicar com os mortos, mass  as pessoas não acreditavam e zombavam dele. Por isso era muito angustiado. Contou-me que uma vez   - A senhora acredita em fantasmas minha vó?

- Acredito, meu filho. E até já falei com eles.

- Falou? Ficou frente a frente com algum deles?

- Não. Eu não vejo eles. Apenas invoco eles e ele conversam comigo. Nunca vi nenhum deles 
 





   
nvestigar os detalhes daquela história macabra. Por isso, fui até cemitério da cidade. Se tudo não fosse mentira, a menina estaria enterrada ali mesmo, naquele lugar. O cemitério não era tão grande assim. Não demorei pra identificar a cova dela. Era uma lápide grande, toda de mármore. Nela, havia um retrato de uma garota, portegido por uma redoma de vidro, onde estava escrito: Cristina Bezerrza dos Santos (1955 – 1970).
Cheio de espanto e terrivelmente assustado, ergui-me do chão de um salto.
- Meu Deus, era ela! A loirinha com quem eu havia dançado naquela noite!
No instante seguinte senti todo meu corpo gelar e o coração começou a bater forte e acelerado, num ritmo totalmente descompassado e num Estava ainda agachado diante do redoma, quando julguei ouvir a voz de Cristina saindo de dentro do túmulo:
- Veio me visitar, Marcelo? Estava com saudades de mim, meu querido?
Cheio de espanto e terrivelmente asustado, ergui-me de um salto. Nesse instante senti todo meu corpo gelar e o coração começou a bater forte e descompassadamente, como se quisesse saltar de dentro do meu peito. Meio tonto ergui elevantei  E antes de ouvir mais alguma coisa saí do cemitério correndo, completamente atordoado. E nunca mais voltei naquele lugar. Passei muito tempo assustado. Olhar pra menina de vestido branco, nem pensar . Só se eu estivesse louco. E nunca mais entrei naquela maldita boate.





 

Elas contas que durante a noite o fantasma do velho aparece no portão da casa, assustando quem passa por lá.

      - Você acredita nessas besteiras, Evandro? - perguntei escondendo meu medo.

      - Sei lá, talvez tudo isso seja invenção dessa gente. Mas de certas coisas, melhor não duvidar.

      - Você disse que o velho se matou. Como foi que isso aconteceu?

      -  

      -Você acredita nessas besteiras, Evandro? - perguntei disfarçando meu medo. 

        

             

      - 

     - Pois é. Depois que o velho, a esposa e a filha dele morreram, as pessoas contam que coisas assombrosas acontecem naquela casa. Dizem até que, durante a noite, as luzes da sala se acendem e pouco depois o fantasma do velho aparece no portão da casa.

     - Então o velho tinha uma filha? - perguntei, cheio de curiosidade e apreensão.

     - Tinha. Chamava-se Mariana, a menina. Uma linda loirinha de olhos verdes, que vez por outra aparecia na casa de minha tia.

     - E como foi que ela morreu?

     - Morreu junto com o pai e a mãe, vítima de um terrível acidente de carro.

     - Que história mais triste!

     - Triste não, trágica. Lamentavelmente trágica, meu amigo. Agora, que todos já morreram, ninguém mais tem coragem de passar perto daquela casa, principalmente à noite.

     Evandro contou-me ainda outras histórias, cada uma mais assustadora que a outra. E quando terminou de contá-las, ficou parado, no meio do jardim, espreitando minha reação. Como permaneci calado, ele então me perguntou:

      - Você acredita em fantasmas, Marcelo?

      - Sei lá. Mas de certas histórias, melhor não duvidar - respondi, disfarçando meu medo.

 

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    Deitado nesse leito de hospital, sei que me resta pouco tempo de vida. Cheio de medo, espero apenas o momento de exalar meu derradeiro suspiro. Os médicos dizem que meu estado de saúde é irreversível, porque a doença já se espalhou por todo meu corpo. Estou morrendo e ninguém pode fazer mais nada por mim.

        Antes de morrer, porém, quero contar a minha história, mesmo que as pessoas digam que sou um grande mentiroso ou que perdi definitivamente o juízo, ao relatar coisas tão absurdas e completamente fantasiosas.

        Tudo aconteceu em 1973.  Naquela época, apesar de ser apenas um rapazola, eu já frequentava bares e boates. E sempre que podia vagava solitário pelas noites e madrugadas, em busca de aventuras e prazeres fáceis. Foi numa daquelas noites que, para meu encanto e castigo, conheci uma garota, de quem  nunca vou esquecer.      

         Havia na minha cidade duas boates, sendo que uma delas era a minha predileta. Por fora ela tinha o aspecto de uma caverna, toda moldada no gesso. Por dentro, era aconchegante e cheia de cavidades. Era ali onde eu tomava minhas cervejas e dançava com algumas garotas.

         Certa noite, sentado numa das mesas daquela boate, notei que uma menina de vestido branco olhava pra mim, com grande interesse e insistência. Quando um fecho de luz negra iluminou o rosto dela, percebi que se tratava de uma linda garota. Por isso, sem perda de tempo, fui até onde ela estava e convidei-a pra dançar. Ela aceitou.

         Enquanto dançávamos, reparei melhor no jeito dela. Era realmente uma linda menina, quase uma princesa. Tinha cabelos loiros e olhos verdes, que eram vívidos e cheios de ternura.  Do seu  corpo desprendia-se uma fragrância inebriante, que mais parecia o suave eflúvio do jasmim.

         Ao som de músicas românticas, dancei com Mariana (esse era o nome dela) durante um bom tempo. Mas quando o ritmo das músicas se fez mais acelerado e barulhento, ela soltou-se de mim e começou a girar pelo salão. Meio sem graça, voltei para minha mesa.

        Então, como forma de me agradar, ou talvez de se desculpar, Mariana veio de lá rodopiando, até que ficou a dois passos de mim. Dançando e se peneirando toda. Por fim começou a balançar os quadris, de um jeito tão gracioso e sensual que me deixou absolutamente deslumbrado. Depois, veio sentar-se perto de mim. Não demorou muito e já estávamos abraçados.

        Ao final de algum tempo, totalmente enfeitiçado por aquela menina maluquinha, eu já não era dono dos meus anseios e nem sequer de mim mesmo. Por isso, tomei Mariana em meus braços e dei-lhe um beijo ardente e demorado. Não satisfeito, durante o resto da noite provei mais e mais dos beijos dela, que eram doces como mel de araçá.

        Já era de madrugada quando fui deixar Mariana em casa. Com muitos beijos e abraços nos despedimos, com a promessa de nos encontramos dentro de mais dois dias. Mas, uma semana se passou e Mariana não apareceu. Meio despeitado fui até a casa dela. Ao chegar no portão, bati palmas. Veio de lá o pai dela, um velho corcunda e careca, de aparência meio desleixada.  

          - Pois não.

          - Boa noite,  Mariana está?

          O homenzinho franziu a testa, olhou-me cheio de desconfiança e depois perguntou:

          - Quem é você, moço?

          - Meu nome é Marcelo, sou amigo de Mariana.

          - Sei - resmungou o velho.

          - Por obséquio, pode dizer a ela que estou aqui?

          Dessa vez o homenzinho me olhou ainda mais desconfiado.

         - Olhe, moço, eu não conheço você... mas se não sabe, Mariana morreu faz mais de dois anos.    

          Ao ouvir as palavras dele, achei que estava brincando comigo.

          - Está certo, meu senhor. Mas isso de dizer que Mariana morreu... não tem a menor graça.

        - Não tem graça mesmo não, meu rapaz - replicou o velho, mostrando no rosto um certo azedume. - Se falei que Mariana morreu, é porque ela morreu mesmo. Não ia brincar com essas coisas.

        Além de mentiroso, mal-humorado. Mas por que ele estava mentindo pra mim? Se não queria que Mariana falasse comigo, era só me mandar embora. Para que inventar que a filha tinha morrido?

        Querendo ser gentil ainda tentei conversar com a criatura, e até perguntei o nome dele.

       - Meu nome é Herculano... Herculano Santos - respondeu o velho de mau jeito.

      Respondeu à minha pergunta e ficou calado, de cara fechada. Fechei a cara também e não quis mais conversa com ele. Não gostei do corcunda, nem ele de mim. Despedi-me dele e tomei o caminho de casa, deixando-o para trás. Era só o que me faltava, um velho maluco escondendo a filha de mim, como se eu fosse algum monstro.

        No dia seguinte fui até a casa de Evandro, um amigo de infância. Encontrei-o no jardim, regando flores e samambaias. Tão logo me viu, veio ao meu encontro.

       - Quem é vivo sempre aparece.

       Ficamos conversando por algum tempo, no meio da conversa perguntei:

       - Você conhece um velho chamado Herculano Santos?

       - Conhecia, o velho já morreu - disse Evandro.

       - Que morreu que nada! Estou falando de um velho corcunda, meio maluco.

      - Com esse nome, meu amigo, só havia um corcunda na cidade. Mas por que esse interesse pelo finado?

       Ia responder com uma mentira qualquer, quando ele me fez outra pergunta:

       - Espere aí... você que perambula muito pela noite, por acaso já passou perto de uma casa amarela, que fica do outro lado da ponte?

      - Eu não! Por quê?   

      - Porque era lá que o velho morava, antes de morrer.

      - E daí?

     - Daí que as pessoas dizem que aquela casa é mal assombrada.

     - Você disse que a casa é mal assombrada?  

     - Pois é. Depois que o velho, a esposa e a filha dele morreram, as pessoas contam que coisas assombrosas acontecem naquela casa. Dizem até que, durante a noite, as luzes da sala se acendem e pouco depois o fantasma do velho aparece no portão da casa.

     - Então o velho tinha uma filha? - perguntei, cheio de curiosidade e apreensão.

     - Tinha. Chamava-se Mariana, a menina. Uma linda loirinha de olhos verdes, que vez por outra aparecia na casa de minha tia.

     - E como foi que ela morreu?

     - Morreu junto com o pai e a mãe, vítima de um terrível acidente de carro.

     - Que história mais triste!

     - Triste não, trágica. Lamentavelmente trágica, meu amigo. Agora, que todos já morreram, ninguém mais tem coragem de passar perto daquela casa, principalmente à noite.

     Evandro contou-me ainda outras histórias, cada uma mais assustadora que a outra. E quando terminou de contá-las, ficou parado, no meio do jardim, espreitando minha reação. Como permaneci calado, ele então me perguntou:

      - Você acredita em fantasmas, Marcelo?

      - Sei lá. Mas de certas histórias, melhor não duvidar - respondi, disfarçando meu medo.

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