A FORÇA DO DESTINO

   Na escola as professoras gostavam dele, só a diretora. Mal comportado e teimoso, Floriano não era de gênio fácil. Quando tinha uma oportunidade qualquer, lá estava ele, tirando o sossego de todo mundo. Embora fosse um garoto inteligente, não gostava de estudar.    

   Um dia, descobriu que estava apaixonado. Com apenas onze anos e já pensando em namoro.  Mas eis que Cristina, uma linda loirinha de olhos verdes, era menina de família rica. Vivia cercada de luxos, mimos e paparicos. Pobre para ela, não tinha valor. Cheia de orgulho ela nem sequer olhava pra ele. Enquanto que ele, mísero vivente, só tinha olhos pra ela.  

   Apesar de pobre, tinha mesa farta. Mas, de tão triste, já não queria comer. Morrer, talvez quisesse. De tanto desgosto enfiou-se dentro de casa e não quis mais brincar na rua. Dentro de casa passava a maior parte do tempo quieto, calado. A mãe dele, coitada, fazia de tudo para agradá-lo. Não tinha jeito, o menino era só tristeza. Preocupada ela sondava o estado de espírito do filho, sem saber o motivo de tanto desconsolo.

     - Meu Deus, o que será que esse menino tem?   - perguntava ela para o marido.

    Mais tarde, a pobre mulher começou a desconfiar que Florêncio estivesse doente. Só que doente mesmo, ele não estava. E se acaso estivesse,  era de paixão. Mas como alguém podia imaginar que um garoto, ainda naquela idade, estivesse  acometido de um mal tão grande? Um garoto que não havia, sequer, deixado de mijar na cama. Agora, apaixonado daquela maneira.
    Quando as férias chegaram, aconteceu o inesperado: um circo chegou na cidade. Cheio de curiosidade Florêncio foi olhar a novidade de perto. Na frente do circo, um palhaço. De cara pintada e chapéu na cabeça, cercado por um bando de crianças. 

   Então o palhaço pediu que a meninada se aproximasse mais um pouco. Ele também se aproximou. Minutos depois, todo mundo já sabia o que fazer.  Agora era só sair pelas ruas da cidade, e quando o palhaço gritasse a primeira rima, os meninos iam responder com outra, conforme combinado.

   E lá se foram eles. O palhaço na frente, equilibrando-se em duas grandes pernas de pau, e a meninada atrás, numa alegria de dar gosto. Então o palhaço deu o primeiro grito, anunciando com voz forte e estridente a estreia do circo na cidade:

     - Hoje tem espetáculo?
     E a meninada respondeu:
     - Tem, sim sinhô!
     - Às oito horas da noite?
     - Tem, sim sinhô!
     - E arrocha, negada!
     - Uhull!
     - Mais um bocadinho!
     - Uhuuuuuuuuuuuuull!
     - Subi pelo tronco e desci pela rama.
     - Menina bonita me deite na cama.
     - Tapioca de coco, beiju de massa.
     - Peguei nos pitoco de dona Graça.
   Ah, o circo! O circo encheu a vida de Floriano de cores e alegria. Vivendo agora num mundo de encanto e magia, ele nem mais se lembrava de Cristina. Ela que fizesse bom proveito de sua vidinha de menina rica. 

   Dois meses depois, para a grande decepção do garoto, o circo foi embora da cidade. Então, mais um ano de sua infância transcorreu sem grandes alegrias. Até que um dia, para o completo deslumbramento de seus olhos, a bela Mariana apareceu diante dele. Que lindos olhos e que candura tinha aquela menina. Mal botou os olhos nela, já se apaixonou no mesmo instante.  

    Mais tarde, os dois se tornaram grandes amigos. E foi como amigo que Floriano descobriu que Mariana também era apaixonada por ele. Mas, fosse por orgulho, ou por medo de estragar aquela amizade tão bonita, eles guardavam segredo dos seus sentimentos. Embora apaixonados, fingiam ser apenas amigos, quando todo desejo delesera disfarçavam como podiameles um pelo outro assim, aquela amizade transformou-se num namoro disfarçado. 

    Nas festas, eles sempre dançavam juntos. Às vezes, de tão felizes, por qualquer motivo os dois se abraçavam, e cheios de felicidade achavam bonito a vida do jeito que ela era. 

    Em certos momentos, Mariana fingindo cansaço encostava a cabeça no ombro dele. Enquanto que ele, fazendo-se de bobo, enroscava o braço na cintura dela. E os dois ficavam ali, um pertinho do outro. Juntos e abraçados. Naquelas horas o coraçãozinho dele ia nas nuvens e voltava.

    De tão agoniado, Floriano passou a viver um grande drama. Gostava tanto de Mariana, mas não tinha coragem de confessar que estava apaixonado por ela. Por fim,  começou a tomar raiva de si mesmo, envergonhado de sua grande covardia. Completamente despeitado, trancava-se no quarto, olhando-se no espelho do guarda-roupa.
    - Bobo! Como você é bobo, garoto!

   O tempo passou, e de menino Floriano tornou-se rapaz feito. E viu que estava condenado a ser eternamente bobo, sempre apaixonado por aquela menina.

   Mas, Mariana também cresceu. Tornou-se uma jovem atraente, cheia de graça e beleza. Só que agora, depois de grande, ela não estava mais  apaixonada por ele. A moça estava de casamento marcado com outro rapaz. Cheio de desgosto, Floriano assistiu ao casamento dela. E prometeu nunca mais amar outra mulher. 

   Muitos anos se passaram. E pelo visto Floriano pretendia mesmo cumprir aquela promessa idiota. A vida, entretanto, é cheia de surpresas. Estava ele com vinte e nove anos quando, numa manhã de sábado, entrou naquela livraria. Gostava de ler. Por isso, estava à procura de alguma obra que fosse do seu agrado.

    Dentro da livraria, ainda folheou vários livros. Mas não viu nada de interessante neles. Meio decepcionado já ia dirigindo-se  à porta de saída,  quando uma vendedora veio ao encontro dele, toda se desmanchando em sorrisos. Difícil resistir a tanto charme e simpatia, ele abriu um sorriso também. Então, a moça chegou mais perto dele e perguntou:

   - O senhor precisa de ajuda?

   Naquele instante, Floriano lembrou dos versos de um poeta e até teve vontade de recitá-los para aquela mocinha: "Não me chame de senhor/Que não sou tão velho assim/Perto de você, meu amor/Não sou senhor nem de mim." 

   Ao invés disso, ficou calado, admirando o jeito simples e prestativo da vendedora. A jovem fez-se tão cheia de gentilezas e atenção, que ele, só para agradá-la, findou comprando dois livros. Antes de sair da livraria, porém, botou melhor reparo na moça. Era uma morena charmosa, alegre e cheia de vida. Luciana, eis o nome dela.

   Três anos mais tarde, como não houvesse outro jeito de viver feliz, Floriano rendeu-se definitivamente aos encantos de Luciana. E, numa tarde de domingo, casou-se com ela. Nada que se compare à força arrebatadora de uma paixão. Eis que, por um simples capricho do destino, ele já não era mais "senhor de si".

   

             

José Oliveira Santiago

 

 

 

 

  • Facebook Classic
  • Twitter Classic
  • Google Classic