A MENINA DE BRANCO

         Deitado no leito fedorento desse hospital, sei que me resta pouco tempo de vida. Do contrário não me atreveria a relatar essas coisas, por medo das pessoas dizerem que perdi o juízo ou que sou um grande mentiroso. Agora, que estou prestes a deixar esse mundo, pouco me importa a opinião dos outros. Pensem de mim o que quiserem, ainda que a minha história seja um pouco intrigante.

       Tudo aconteceu em 1972.  Naquela época, apesar de muito jovem, eu já frequentava bares e boates. E sempre que podia vagava solitário pelas noites, em busca de aventuras e prazeres fáceis.  Foi quando pra meu castigo, conheci aquela loirinha, de quem nunca vou esquecer.      De todas as boates que eu frequentava, uma 

       Havia na minha cidade duas boates, sendo que uma delas era a minha predileta. Por fora ela tinha o aspecto de uma caverna, toda moldada no gesso. Por dentro, era aconchegante e cheia de cavidades. Era ali onde eu tomava minhas cervejas e dançava com algumas garotas.

      Certa noite, sentado numa das mesas daquela boate, notei que uma menina de vestido branco olhava pra mim, com grande interesse e insistência. Quando um fecho de luz negra iluminou o rosto dela percebi que se tratava de uma linda criatura. Por isso, sem perda de tempo, fui até onde ela estava e convidei-a pra dançar. Ela aceitou.

     Enquanto dançávamos, reparei melhor no jeito dela. Era realmente uma linda garota, quase uma princesa. Tinha cabelos loiros e olhos verdes, traços finos e graciosos. Do seu corpo exalava uma fragrância inebriante, que mais parecia o suave eflúvio do jasmim.

     Ao som de músicas românticas, dancei com Marina (esse era o nome dela) durante um bom tempo. Mas quando o ritmo das músicas mudou, ela soltou-se de mim e começou a girar pelo salão. Meio sem graça decidi voltar para minha mesa.

    Então como forma de se desculpar ou de simplesmente me agradar, ela veio de lá rodopiando, até que ficou a dois passos de mim. E continuou dançando. Por fim começou a balançar os quadris, rebolando e se peneirando toda, de um jeito tão provocante e sensual que me deixou completamente excitado.

     Minutos depois ela veio sentar-se perto de mim. Não demorou muito e já estávamos abraçados. Àquela altura, totalmente enfeitiçado por aquela menina maluquinha, eu já não era mais dono de mim, muito menos dos meus anseios. Por isso tomei Marina em meus braços e dei-lhe um beijo ardente e demorado. E durante o resto da noite provei mais e mais dos beijos dela, que eram doces como mel de araçá.

      Já era de madrugada quando a levei para casa. Ali nos despedimos com muitos abraços, com a promessa de que nos encontraríamos no dia seguinte. Mas, alguns dias se passaram e nada de notícias de Marina. Assim, mesmo que estivesse meio despeitado, fui até a residência dela.  Ao chegar no portão bati palmas. Quem me atendeu foi um velho corcunda e careca.

- Pois não.

- Boa tarde, a Marina está em casa?

O homenzinho franziu a testa, pra depois me olhar com certa desconfiança.

- Por que você está procurando por ela, moço?

- Sou amigo dela. Diga a ela que o Alfredo está aqui.

Dessa vez ele me olhou ainda mais desconfiado.

- Olhe, moço, não sei quem você é... Mas se não sabe, Marina morreu faz dois anos.

Não achei a menor graça naquilo. Aquele velho devia ser meio maluco. 

- O senhor é o pai dela? - perguntei

- Sou.

- E como é que o senhor se chama?

- Aureliano Carvalho.

- Está certo, seu Aureliano. Mas isso de dizer que ela morreu... deve ser alguma brincadeira.

- Não. Não é brincadeira, meu rapaz - disse o homenzinho meio zangado. Quando lhe disse que Marina morreu é porque ela morreu mesmo. Não ia brincar com essas coisas.

É, brincando o velho corcunda não estava. Devia estar mentindo ou então ele era mesmo maluco.

O senhor pode me mostrar uma foto dela? - perguntei finalmente.

Ele entrou em casa apressado e pouco depois veio de lá, com um retrato na mão.

- Pronto, aqui está.

Então vi que a moça do retrato era realmente Marina.

- Meu Deus! Era ela, a loirinha com quem eu havia dançado naquela noite!

Não quis mais fazer perguntas. Por isso me depedi do velho e tomei o caminho de volta para casa. Naquela noite não consegui dormir. Mas na manhã seguintee voltar pra casa, decidi investigar os detalhes daquela história macabra. Por isso, fui até cemitério da cidade. Se tudo não fosse mentira, a menina estaria enterrada ali mesmo, naquele lugar. O cemitério não era tão grande assim. Não demorei pra identificar a cova dela. Era uma lápide grande, toda de mármore. Nela, havia um retrato da garota, coberto por uma redoma de vidro. Embaixo dele estava escrito: Marina Carvalho de Medeiros (1955 – 1970). Estava ainda conferindo o nome da menina, quando uma voz saiu de dentro do túmulo dela:

- Veio me visitar, Alexandre? Estava com saudades de mim?

Reconheci que aquela era a voz de Marina. E antes de ouvir mais alguma coisa saí do cemitério correndo, completamente apavorado. E nunca mais voltei naquele lugar. Passei muito tempo assustado. Olhar pra menina de vestido branco, nem pensar . Só se eu estivesse louco. E nunca mais entrei naquela maldita boate.