QUEM PUDER QUE CASE  

     
       
            Deus criou a mulher porque viu que o homem precisava de uma companheira. Mas aí veio São Paulo e disse "Quem puder, não case." Eu, já não digo a mesma coisa.  Ora, quem puder que  case e, se for possível,  que seja muito feliz.  
    A verdade é que, em certos casos, a separação é muito mais desastrosa que o próprio casamento. Por isso, em qualquer circunstância, ainda que o divórcio se apresente como a melhor solução, todo cuidado é pouco. 
     Antônio Martins não pensava assim. Dono de uma fortuna invejável ele nunca soube o que era má sorte ou desventura, até se separar da esposa.  Extremamente abençoado por Deus, ele era uma espécie de Midas  -  em tudo que botava a mão se transformava em ouro, pra não dizer em dinheiro. Mas, por causa da falta de juízo ou de cautela, ele terminou na miséria.
    Quando soube que Antonio Martins tinha uma amante, não não acreditei. Afinal, ele parecia estar bem casado e feliz, mas não: ele estava mesmo de caso com uma moça.  Juliana - eis o nome dela - era uma loira bonita e elegante, tinha olhos verdes e um corpo escultural. Tanta beleza assim numa mulher, deixou Antônio Martins completamente enfeitiçado. E de tão engambelado que estava, ele fazia de tudo para agradar aquela moça. Pobre homem, não percebia que ela só estava de olho no dinheiro dele.
     Naquela época, ele tinha pra mais de cinquenta casas alugadas,  além de quatro prédios comerciais. Foi quando o homem começou a fazer uma besteira atrás da outra. Aquela moça tinha mesmo virado a cabeça dele, e Deus parecia tê-lo abandonado à mercê de sua própria loucura.
     De início, para viver com Juliana, tratou logo de se divorciar da esposa. E já na separação,  teve que deixar metade de tudo que possuía para os filhos. Depois, por influência e conselhos da amante, vendeu os imóveis que ainda tinha e aplicou todo o dinheiro na poupança. Dessa forma, além de ganhar dinheiro fácil com os juros altos, ele ainda se livrou de muitos problemas, já que alguns inquilinos estavam deixando de pagar os aluguéis. Mas aí veio o Collor e confiscou todo o dinheiro dele.
        Então,  da noite para o dia Antônio Martins ficou na miséria.  Pra completar, a loira bonitona, que tanto dizia gostar dele, abandonou o coitado e fugiu com outro. Aí foi que ele desgostou de vez da vida, e caiu numa tristeza profunda. Dizia que ia se matar. E a prosa dele, além de não me agradar,  ainda me deixava preocupado.
       Deus, porém, não permitiu que ele fizesse uma besteira tão grande. Só que a pobreza fez dele um homem  calado, quieto e sem alegria. Um homem tão cheio de vida, agora cheio de desgosto. Dava muita pena, só de vê-lo naquele estado.   Até que um dia, quando menos esperávamos, ele morreu de um infarto fulminante. Morreu pobre e deprimido, como alguém que pagou um preço alto por ter abandonado a esposa, que o amava tanto, pra viver ao lado de uma mulher desprezível e sem coração. 
  José Oliveira

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