Quem ainda não conhece, vai conhecer: o jogo do faz-de-conta. Pra começar vou fazer de conta que escrevo maravilhosamente bem, sem tropeçar nas palavras ou na falta de jeito. E quem ler o meu texto pode fazer de conta que ele é interessante. Achando melhor, pode até fazer um comentário elogioso.

   De minha parte, não darei importância ao que as pessoas disserem. Porque sei que tudo não passa de um jogo de palavras, onde cada um mente do jeito que melhor pode. Mas, pra jogar esse jogo, só se for dessa maneira: com muita mentira e nenhuma verdade. Como regra é preciso sempre enganar. Se possível, enganar o mundo inteiro. Mentir para si mesmo também faz parte do jogo. Fingir que a vida nesse país é maravilhosa.  

   E quem ainda não sabe jogar esse jogo, que aprenda com o povo brasileiro. Aproveite enquanto ainda é tempo e venha conhecer o país do carnaval. Visite o Rio de Janeiro e assista ao desfile das escolas de samba na Sapucaí. E veja que povo alegre e festivo. Mas essa gente, essa gente não é feliz à toa não. O motivo de tanta felicidade é que eles vivem no Brasil, onde tudo acontece sob o véu da mentira e da enganação.

   Por aqui, os governantes fazem de conta que governam - mas só roubam. E não roubam pouco não, roubam muito. E ainda tem gente que apoia e acha bonito. Quanta idiotice!

   Entra ano e sai ano e o povo nesse marasmo, no mais absoluto sossego. Deitado eternamente em berço esplêndido, sem fazer absolutamente nada diante de tantos absurdos. E quando chega a época das eleições, as pessoas fazem ainda melhor: boa parte delas faz de conta que vota com consciência. Mas consciência mesmo é coisa que pouca gente tem. E é justamente por falta de consciência que muitos vivem na mais absoluta miséria.

   Tudo podia ser diferente, mas não: o problema do brasileiro é que ele se vende por muito pouco. Sempre querendo levar vantagem em tudo. E assim, sem fazer muito esforço, muitos se contentam com um bocadinho aqui e outro ali. E assim, cada um se vende do jeito que melhor pode. Uns se vendem por menos, outros por mais.  E ainda tem aqueles que, por um bocadinho a mais, vendem até a própria alma. Afinal, o mundo é dos mais espertos, dizem eles. 

  Se na política é assim, noutros setores não é diferente. Na educação o governo faz que paga, o professor faz que ensina e o aluno faz que aprende. Que coisa interessante! Pois é. Educação de qualidade, nesse país, é privilégio de poucos. Daí a origem de tanta falta de consciência.

  E ainda tem mais: se o professor participa de alguma manifestação, reivindicando um salário digno e melhores condições de trabalho, o governante manda a polícia baixar o cacete no "meliante", sem peso ou medida certa. É, por aqui o sistema também é bruto.  

   No final só quem se dá bem é a malandragem, principalmente a classe política. E quem paga a conta é o trabalhador. Esse, coitado, além de trabalhar muito, e ganhar um mísero salário, ainda responde pela culpa de quem não trabalha e vive de falcatruas.  

  Mas, se a coisa é mesmo assim, também quero participar desse jogo, fingindo que estou muito feliz. Posso ainda fazer melhor: se preciso posso me fingir de morto, só para me aproveitar do coveiro. Só que isso, isso não combina com o meu perfil. E se for pra mentir e tirar proveito dos outros, melhor ficar por aqui. Porque se existe alguém que não gosta de enganar os outros, esse cara sou eu.

JOTA F. SANTIAGO 

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